28.11.13

Os Sete Demónios


Os Sete Demónios é um livro de contos subordinado à temática do Natal, com um título assaz curioso para um livro cheio de religiosidade e de adoração por essa celebração festiva. Editado em Lisboa, no ano de 1926, pela Emprêsa Literária Fluminense, encontra-se assinado por Maria Magdalena. Contudo, o nome da autora é muito parco para revelar a enorme escritora, ensaísta e poetisa que viveu muitos anos em Pombal, numa propriedade que a família possuía em Flandes. Referimo-nos a Maria Madalena Valdez Trigueiros de Martel Patrício, filha de João Campelo Trigueiros Martel e Maria Henriqueta Mascarenhas Godinho Valdez, nascida em Lisboa a 19 de Abril de 1884 e falecida em 1947.

Martel Patrício publicou em 1915 o seu primeiro volume de poemas, em francês, intitulado Le Livre du Passé Mort, que mereceu as mais elogiosas referências da crítica, seguindo-se outras obras de prosa, poesia e ensaio, tanto em língua francesa como portuguesa. Nas suas Memórias, Raul Brandão escreveu: “Madalena Trigueiros de Martel Patrício, pequenina, vivíssima compleição de artista, gostos aristocráticos, fazendo versos em francês e duma alegria comunicativa”.

Martel Patrício correspondia-se com Selma Lagerlöf, prémio Nobel da Literatura em 1909, com o Visconde Júlio de Castilho ou com Maria Amália Vaz de Carvalho, entre tantos outros notáveis da cultura portuguesa e internacional. Fez parte do Instituto de Coimbra, da Associação dos Arqueólogos Portugueses e pertenceu à Société des Gens de Lettres de France. Colaborou em várias revistas e jornais e manteve uma secção dedicada especialmente às mulheres e às crianças, no jornal O Comércio do Porto.

No livro, Os Sete Demónios, destaque para o conto Os pêssegos, escrito em Flandes, Pombal, em Outubro de 1926, onde a autora narra a história do padre António da Conceição, também conhecido por Beato António, a caminho do mosteiro de Santa Maria da Batalha onde iria dizer a missa de Natal. Curiosamente, a personagem, o Beato António, religioso da Congregação de S. João Evangelista, nasceu em Pombal a 12 de Maio de 1522 e morreu em Maio de 1602, tendo sido beatificado logo após a sua morte1. 

No seu livro autobiográfico Le Rosaire de la Vie: Les Fleurs d’Amandiers, Martel Patrício refere as célebres tijeladas de Pombal, tão apreciadas pelos soldados de Napoleão e que faziam as suas delícias2, entre tantas outras referências e histórias sobre a vida social e cultural do seu tempo na então Vila de Pombal. Alguns dos seus livros estão disponíveis para consulta na Biblioteca Municipal de Pombal, no Fundo de Autores Locais.

Em 1934, Maria Madalena de Martel Patrício foi nomeada para o Prémio Nobel de Literatura, por António Pereira Forjaz e Bento Carqueja, membros da Academia Real das Sciencias de Lisboa, que, nesse ano, seria atribuído a Luigi Pirandello.


Notas
1 Cfr. Agostinho Gomes Tinoco, Dicionário de Autores de Leiria, Leiria, 1979, p. 129.
2 Cfr. Maria Madalena de Martel Patrício, Le Rosaire de la Vie: Les Fleurs d’Amandiers, Sociedade Industrial de Tipografia, Lisboa, 1937-1938, p. 189.

21.11.13

Ruas com livros dentro

Por todas as cidades é frequente encontrar uma ou outra placa toponímica homenageando escritores portugueses, uns porque aí nasceram, outros porque aí habitaram. Mas nunca o homenageado foi o próprio livro. E isso encontra-se em Pombal, ao longo de vinte e seis ruas, numa pequena biblioteca com vinte e seis livros. Imagine, caro leitor, o que é dizer aos seus amigos, quando lhes indica a sua morada, que vive na Rua das Gaivotas em Terra, referência ao primeiro romance de David Mourão-Ferreira, ou então no Beco d’Os Gatos, obra de Fialho de Almeida. Certamente ficarão estupefactos e lhe perguntarão, desconfiados, se é mesmo verdade. Pode acreditar. Mas ainda há mais. Por exemplo, a Rua d’A Musa em Férias, de Guerra Junqueiro, a Rua d’Os Adoradores do Sol, de Fernando Namora ou a Rua do Pranto de Maria Parda, de Gil Vicente. Uma verdadeira biblioteca de obras portuguesas se acha pelas ruas da cidade de Pombal, no centro do país.


Tudo aconteceu em 1996, quando em reunião de Câmara, a 4 de Outubro, o Município de Pombal deliberou as denominações toponímicas a atribuir para algumas ruas da cidade de Pombal e da Charneca, privilegiando os livros em si e não directamente os seus autores. Este será talvez um dos melhores elogios que alguma vez se realizaram em Portugal em prol da nossa literatura. Seguramente será também uma boa promoção do livro e da leitura, tão importante nos dias da iliteracia de hoje. Quantos dos seus moradores não se terão já questionado sobre aquele livro que designa a rua onde habita e não terão partido à sua descoberta.

Não querendo pecar por míngua ou omissão, prefiro correr o risco de ser fastidioso mas deixar registado em letra redonda os livros que se podem passear por Pombal. Assim, encontramos, além das referidas, a Rua d’O Fidalgo Aprendiz (D. Francisco Manuel de Melo); a Rua d’Os Lusíadas (Luís Vaz de Camões); a Rua da Cartilha Maternal (João de Deus); a Rua (António Nobre); a Rua dos Emigrantes (Ferreira de Castro); a Rua d’O Monge de Cister (Alexandre Herculano); a Rua Menina e Moça (Bernardim Ribeiro). — Na Urbanização da Bela Vista: Rua da Mensagem (Fernando Pessoa); Rua d’A Morgadinha dos Canaviais (Júlio Dinis). — Na Urbanização de São Cristovão: Rua d’O Primo Basílio (Eça de Queiroz); Rua d’A Sibila (Agustina Bessa-Luís); Rua do Leal Conselheiro (D. Duarte); Rua d’A Sobrinha do Marquês (Almeida Garrett); Rua da Estrela Polar (Vergílio Ferreira). — Na Urbanização da Senhora de Belém: Rua da Peregrinação (Fernão Mendes Pinto); Rua do Memorial do Convento (José Saramago); Rua d’Este Livro Que Vos Deixo (António Aleixo); Rua do Amor de Perdição (Camilo Castelo Branco); Rua do Orfeu Rebelde (Miguel Torga); Rua das Décadas da Ásia (João de Barros). E por fim, na Charneca, nada mais a propósito do que a Rua da Charneca em Flor (Florbela Espanca).

Só mais um pequeno conselho, caro leitor. Antes de iniciar o seu passeio à descoberta da nossa literatura, vá munido de um sápido lanche. Procure pelas bandas do Largo do Cardal pelas queijadas da Ti Maria Rata ou pelos Cardalinhos, verdadeiros ex libris da doçaria pombalense. Vai ver que o passeio lhe sabe pela vida.

1.11.13

O meu primeiro dicionário

Sempre gostei de dicionários e tenho por eles um particular fascínio. Dicionários que vão desde o Vocabulário de Bluteau ao Dicionário de Zoologia, do Dicionário de Domingos Vieira ao Dicionário Houaiss, só para citar alguns exemplos.

Quando pequeno era curioso e cedo manifestei uma grande vontade de saber, de conhecer, de compreender como o mundo e as coisas funcionavam. Infelizmente, em minha casa, não existiram dicionários durante alguns anos.


Foi em casa de um amigo que desenvolvi uma secreta paixão por um dicionário que ele então possuía e ao qual não dava importância nenhuma, tendo-o por lá abandonado a um canto. Quando o visitava, entre uma e outra brincadeira, quedava-me a folhear aquele repertório de informação. Era um Dicionário Enciclopédico Ilustrado que, além das palavras, possuía também vários retratos, mapas e diagramas que mostravam o porquê das coisas e quem eram aquelas estranhas figuras. Tanto namorei o dito que certo dia fiz uma proposta de troca ao meu amigo: dava-lhe o meu pequeno navio de guerra, em metal, belo e exuberante — naqueles tempos sonhava em ser marinheiro, e aquele era o meu totem, o emblema que representava o meu sonho futuro de rapazola — pelo seu dicionário, velho e gasto, com algumas páginas rasgadas e um ar bastante antiquado. Nem pensou duas vezes. A alegria foi imensa, creio que para ambas as partes.


Nessa noite demorei-me a virar as páginas, vislumbrando e maravilhando-me com o que aquele dicionário continha, abraçado a ele como se fosse um velho sábio que tinha tudo para me ensinar. Ainda hoje o estimo e guardo junto dos outros que entretanto foram ampliando a minha secção de dicionários.


O meu primeiro dicionário foi o Dicionário Enciclopédico Brasileiro Ilustrado (4.ª ed., 1953), com uma capa forrada a tecido, de toque agradável. Foi lá que aprendi os deuses da mitologia grega e romana; o nome de muitos escritores e suas obras; quem tinham sido Beethoven, Bizet ou Mozart e o que compuseram; sobre a Idade Média, com os cavaleiros e as armaduras ou os Índios, da América do Norte ou da Amazónia; tudo com ilustrações que faziam agigantar a minha imaginação.


Durante muitos e largos anos, aquela foi a fonte onde fui saciar a minha curiosidade. Em boa hora decidi trocar um brinquedo por outro que me abriu os horizontes, não marítimos, mas intelectuais.

24.10.13

Os "Bingadores"




No dia em que se assinala o lançamento mundial da nova aventura de Astérix e Obélix, intitulada Astérix entre os Pictos (Edições Asa), desta vez assinada por Didier Conrad (desenho) e Jean-Yves Ferri (argumento), não queria deixar de recordar uma curiosidade sobre o genial criador da dupla de heróis gauleses, René Goscinny (1926-1977), um dos maiores e prolíficos argumentistas de banda desenhada do mundo.

Poucos saberão que, em toda a sua vasta obra, Goscinny apenas deixou um único romance publicado, Tous le visiteurs à terre (Denöel, 1969), sobre as aventuras e desventuras de várias pessoas a bordo de um paquete de luxo, demonstrando assim a sua paixão por paquetes, onde aliás, durante uma viagem, veio a conhecer a sua futura esposa.

Em Portugal, o romance de Goscinny foi publicado em 1972, sob a chancela da Lello & Irmão Editores, com o inusitado título de Os "Bingadores", numa tradução de J. Couto Borges. O próprio tradutor, em explicação preliminar, tenta esclarecer a sua opção, tendo em conta que a «versão literal não era de considerar». A solução encontrada foi Os "Bingadores", «numa clara alusão ao nome duma série que obteve (…) bastante êxito na TV» — Os Vingadores — e porque o jogo do bingo «constitui tradicionalmente uma das distrações quotidianas na vida de bordo, em todos os navios de passageiros de todos os países». A esse jogo, Goscinny dedica o capítulo nove, justamente com o título Bingo!

Escrito num tom satírico e recheado de humor e ironia, René Goscinny encerra num paquete de luxo uma galeria de personagens, descrevendo as suas fobias e manias, em que a pouco e pouco vamos ficando a conhecer a sua vida a bordo e as relações sociais que se vão estabelecendo durante a viagem. Como referido na contracapa, «veremos que, no decurso duma viagem, o mais luxuoso paquete se transforma depressa numa pensão familiar, com as suas preocupaçõezinhas mesquinhas, as suas maledicências, os seus jogos obsoletos, as suas festas sem originalidade, as suas cansativas excursões em terra». É curioso verificar que o gosto particular de Goscinny por navios também se encontra patente nas aventuras de Astérix e Obélix, nas suas viagens e nos fatídicos encontros com os piratas.

Se tiver oportunidade de encontrar um exemplar pelos alfarrabistas, embarque também o leitor e delicie-se nesta viagem, mas não se esqueça, como aconselha o autor: «estar nas boas graças do chefe garante uma boa mesa na sala de jantar».


Obs.: Em França, Tous le visiteurs à terre conheceu mais duas edições; uma em 1997 (Actes Sud) e outra, profusamente ilustrada, em 2010 (IMAV Editions).



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René Goscinny
Os "Bingadores"
Lello & Irmão Editores
188 páginas

22.10.13

Transmontanices - Causas de Comer


Polémico, combativo, saudosista, orgulhoso, são alguns dos predicados que podemos atribuir a Virgílio Nogueiro Gomes, reputado gastrónomo e acérrimo defensor da cozinha regional portuguesa, seja através das suas intervenções públicas, em artigos de jornal ou nas crónicas publicadas no sítio que mantém na internet. Algumas dessas crónicas foram agora vertidas em livro, «Transmontanices - Causas de Comer» (Edições do Gosto, 2010), compreendendo um arco cronológico que se estende de Fevereiro de 2000 até Julho de 2010 e um território preciso: Trás-os-Montes. Uma década de combate pela educação do gosto e, principalmente, pela preservação das nossas tradições culinárias e todas as suas idiossincrasias, algumas das vezes, em choque com as novas variáveis introduzidas pelo progresso. «Prefiro descrever as cozinhas regionais que, isso sim, o seu conjunto constitui o património culinário português», defende o autor.

Natural de Bragança, Virgílio Nogueiro Gomes começa por afirmar que não é fácil estabelecer as fronteiras da chamada cozinha regional, remetendo as suas reflexões culinárias para uma geografia que envolve os distritos de Bragança e Vila Real, em conformidade com a divisão administrativa estabelecida para a província de Trás-os-Montes. Outras dificuldades são apontadas, como a questão da «designação à transmontana enquanto identificadora de um prato e da região». De acordo com o autor, podem ser consideradas, dentro desta região, três grandes sub-regiões: Terra Fria, Terra Quente e as arribas do Douro. Numa tentativa de caracterizar a culinária regional, o autor indica as influências provocadas pelos trabalhadores que, ciclicamente, foram ocupando ou passaram pelo território transmontano, deixando os seus hábitos e os seus ingredientes como testemunho. Naturalmente, a «evolução dos hábitos alimentares nesta região foi acontecendo lentamente, mas com cuidado», adverte Virgílio Nogueiro Gomes, o que permitiu criar uma região «rica em produtos, confecções simples e mesa farta».

Salteando e apimentando as suas crónicas com nótulas históricas e episódios caricatos, o autor vai tecendo várias considerações sobre os tradicionais pratos à transmontana, num périplo pelo receituário português desde os tempos de Domingos Rodrigues, cozinheiro da corte de D. Pedro II e autor do primeiro livro de cozinha editado em Portugal, «Arte de Cozinha» (1680), até ao livro «Cozinha Tradicional Portuguesa» (1982), inventário rigoroso da autoria de Maria de Lourdes Modesto, sem esquecer os contributos de Lucas Rigaud (1780), João da Mata (1876), Carlos Bento da Maia (1904) ou Olleboma (1936), entre muitos outros. Um verdadeiro cardápio transmontano, cheio de história e sabor.

Alguns dos rituais associados à cozinha, ainda em voga em algumas casas, também são descritos pelo autor, como é o caso da matança do porco, detalhadamente relatada, num primoroso registo etno-antropológico: «Nunca se marcava a matança em período de Lua em quarto minguante, para evitar que a carne minguasse ao ser cozinhada»; e a subsequente confecção dos tradicionais enchidos transmontanos: chouriços de verde e doces, azedos, enchidos de pão, alheiras, butelos, linguiças e salpicões, sem esquecer os presuntos. Associados a estes rituais existiam também práticas culinárias muito próprias: «Num dos dias mais aliviados ou no dia de encher os "butelos", comia-se o famoso "guisado de ossinhos", ao qual se adicionava a mioleira batida com ovos».

Uma das guerras mais fervorosas travada por Virgílio Nogueiro Gomes, e bastamente enunciada ao longo do livro, é sobre a questão das alheiras, que nem de propósito acabaram de ser eleitas como umas das sete maravilhas da gastronomia portuguesa. Para o autor, existem muitas adulterações seja à sua produção, seja à sua confecção, tal como afirma: «Uma coisa é evoluir, outra é adulterar». No cerne da questão estão as designadas alheiras de bacalhau e alheiras vegetarianas, que tanta celeuma provocou ao autor, que defende que tais produtos deveriam ser chamados de enchido de bacalhau e enchido vegetariano. «Por favor, chamem o que quiserem a estes produtos mas não lhe chamem alheira», insurge-se o autor, afirmando que o que está em causa não é o produto, mas apenas a sua designação. Uma luta que vinca fortemente as causas culinárias com as quais Virgílio Nogueiro Gomes se bate e galhardamente, para nosso bem.

Como curiosidade, durante o Estado Novo, por ordem de António Ferro, no primeiro regulamento de concessão das Pousadas de Portugal, em 1939, os seus restaurantes deveriam, obrigatoriamente, servir receituário regional de acordo com a sua respectiva localização. Pena foi que o autor não tivesse desenvolvido mais esta questão.

Para finalizar, usamos as palavras de Inês Pedrosa, que assina o prefácio da obra: «De qualquer modo, com um livro assim, não há que temer pela degenerescência do paladar português.»



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Transmontanices - Causas de Comer
Virgílio Nogueiro Gomes
Edições do Gosto
172 páginas

10.10.13

«Caril e Outras Receitas Amorosas»

No próximo sábado, pelas 19h00, estarei no Restaurante Tendinha, em Mem Martins, para apresentar um livro de contos-gastronómicos da autoria de Fausto Marsol intitulado «Caril e Outras Receitas Amorosas».



Mais informações aqui.

17.9.13

Modas e Mitos da Literatura

Com Maria Bochicchio, Paulo Cunha e Silva e Vasco Graça Moura irei falar sobre «Modas e Mitos da Literatura», no próximo dia 19, quinta-feira, pelas 21h00, na Fábrica de Santo Thyrso, no âmbito da S, L, M, XL - Fashion and Design Week. 


«Pretende-se uma conversa performativa que tente evidenciar alguns dos modos como Moda e Literatura geram pontes verdadeiramente surpreendentes. Os temas propostos destacam o papel de relevo que a Moda desempenha na Literatura, muitas vezes à revelia desta. A ilustração é conseguida através de imagens e acontecimentos que pretendem pôr em cena o carácter da Literatura, simultaneamente, de doação e de apropriação, ao mesmo tempo que performatizam, tanto o poder autofágico e canibal desta, como o sua vocação comunicativa. Convidados Maria Bochicchio, Paulo Cunha e Silva, Paulo Moreiras e Vasco Graça Moura (Valise d'Images, vídeo-perfomance).»

Mais informações aqui.

16.9.13

«Na Ponta da Língua» em Santo Tirso

No próximo dia 20, sexta-feira, pelas 18h30, estarei na Fábrica de Santo Thyrso para falar sobre alguns curiosos exemplares da nossa doçaria «Na Ponta da Língua», na companhia de Rosa Alice Branco, no âmbito da S, L, M, XL - Fashion and Design Week.


«Na Ponta da Língua
Documentário ao vivo dos exemplos da moda conventual na doçaria portuguesa. A língua deleita-se com as delícias culinárias e com as palavras que lhes dão nome, introduzindo assim uma doçura dúplice cheia de erotismo. A sátira do sagrado não o compele a mergulhar numa dimensão profana, já que o registo de humor se esgueira por entre os meandros dos nomes que adoçam a língua.
Convidado Paulo Moreiras (Valise d'Image, recolha e projeção de imagens).»

Mais informações aqui.

6.9.13

«Os Olhos de Tirésias» no Candal


Amanhã estarei na Festa da Música, no Candal, pelas 18h30, para apresentar o romance de Cristina Drios, «Os Olhos de Tirésias». Apareçam.


Mais sobre a Festa da Música e respectiva programação, aqui e aqui.

Sobre a autora e «Os Olhos de Tirésias», aqui.

3.9.13

Quase

Hoje, ao romper da aurora, dei por mim a cogitar sobre alguns dos versos de Mário de Sá-Carneiro, um dos poetas da minha adolescência. Talvez naqueles tempos não compreendesse a totalidade deste poema, mas hoje, tantos anos passados, a sua luz espraia-se com outra cor, revelando-me um caminho mais definido e, enfim, compreendido.

Quase
Mário de Sá-Carneiro

Um pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor! – quase vivido…

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo… e tudo errou…
– Ai a dor de ser – quase, dor sem fim…
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou…

Momentos de alma que, desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…

Um pouco mais de sol – e fora brasa,
Um pouco mais de azul – e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…