Os Sete Demónios é um livro de contos subordinado à temática
do Natal, com um título assaz curioso para um livro cheio de religiosidade e de
adoração por essa celebração festiva. Editado em Lisboa, no ano de 1926, pela Emprêsa
Literária Fluminense, encontra-se assinado por Maria Magdalena. Contudo, o nome
da autora é muito parco para revelar a enorme escritora, ensaísta e poetisa que
viveu muitos anos em Pombal, numa propriedade que a família possuía em Flandes.
Referimo-nos a Maria Madalena Valdez Trigueiros de Martel Patrício, filha de
João Campelo Trigueiros Martel e Maria Henriqueta Mascarenhas Godinho Valdez,
nascida em Lisboa a 19 de Abril de 1884 e falecida em 1947.
Martel Patrício publicou
em 1915 o seu primeiro volume de poemas, em francês, intitulado Le Livre du
Passé Mort, que mereceu as mais elogiosas referências da crítica,
seguindo-se outras obras de prosa, poesia e ensaio, tanto em língua francesa
como portuguesa. Nas suas Memórias,
Raul Brandão escreveu: “Madalena Trigueiros de Martel Patrício, pequenina,
vivíssima compleição de artista, gostos aristocráticos, fazendo versos em
francês e duma alegria comunicativa”.
Martel
Patrício correspondia-se com Selma Lagerlöf, prémio Nobel da Literatura em
1909, com o Visconde Júlio de Castilho ou com Maria Amália Vaz de Carvalho, entre
tantos outros notáveis da cultura portuguesa e internacional. Fez parte do
Instituto de Coimbra, da Associação dos Arqueólogos Portugueses e pertenceu à
Société des Gens de Lettres de France. Colaborou em várias revistas e jornais e
manteve uma secção dedicada especialmente às mulheres e às crianças, no jornal O Comércio do Porto.
No
livro, Os Sete Demónios, destaque
para o conto Os pêssegos, escrito em
Flandes, Pombal, em Outubro de 1926, onde a autora narra a história do padre
António da Conceição, também conhecido por Beato António, a caminho do mosteiro
de Santa Maria da Batalha onde iria dizer a missa de Natal. Curiosamente, a
personagem, o Beato António, religioso da Congregação de S. João Evangelista,
nasceu em Pombal a 12 de Maio de 1522 e morreu em Maio de 1602, tendo sido beatificado
logo após a sua morte1.
No seu
livro autobiográfico Le Rosaire de la
Vie: Les Fleurs d’Amandiers, Martel Patrício refere as célebres tijeladas
de Pombal, tão apreciadas pelos soldados de Napoleão e que faziam as suas
delícias2, entre tantas outras referências e histórias sobre a vida
social e cultural do seu tempo na então Vila de Pombal. Alguns dos seus livros
estão disponíveis para consulta na Biblioteca Municipal de Pombal, no Fundo de
Autores Locais.
Em 1934, Maria Madalena de Martel Patrício foi nomeada para o Prémio Nobel de Literatura, por António Pereira Forjaz e Bento Carqueja, membros da Academia Real das Sciencias de Lisboa, que, nesse ano, seria atribuído a Luigi Pirandello.
Notas
1 Cfr. Agostinho Gomes
Tinoco, Dicionário de Autores de Leiria,
Leiria, 1979, p. 129.
2 Cfr. Maria Madalena de
Martel Patrício, Le Rosaire de la Vie:
Les Fleurs d’Amandiers, Sociedade Industrial de Tipografia, Lisboa,
1937-1938, p. 189.








