Memórias
de um médico esquecido é o primeiro livro de Amadeu da Cunha
Mora, numa edição de autor, publicado em 1947, e enriquecido com as ilustrações
de Trilho y Blanco. É uma obra dedicada «ao médico rural, o esforçado cavaleiro
da saúde, cuja inglória odisseia ainda está por escrever», como explica o
próprio na entrada do livro.
Médico, jornalista, dramaturgo, Amadeu da Cunha
Mora nasceu em Pombal em Novembro de 1901, tendo exercido medicina nesta cidade.
Fundou e dirigiu o jornal Terra Mãe,
foi redactor principal do Notícias de
Pombal e cronista no jornal O Eco,
onde assinou a coluna À Ponte Pedrinha,
entre 1946 e 1950. Escreveu também diversos artigos médicos em revistas da
especialidade e em periódicos nacionais. Sob o pseudónimo Fernando Pacheco
escreveu artigos para a Grande
Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

Ao abrir as Memórias
de um médico esquecido o autor alerta o leitor sobre a origem de algumas
das suas crónicas: «O culto pela verdade leva-me ainda a prevenir o leitor
descuidado de que nem todos os factos que relato são a tradução de autênticos
acontecimentos, em que, porventura, desempenhei o papel de primeiro actor». Ao
longo de pequenas histórias, o autor vai desfiando um rol de episódios caricatos
e caricaturais sobre as suas vivências como médico de província, num registo
cheio de humor e vivacidade. Os títulos das suas histórias são, em si mesmas,
já um prenúncio da mordacidade que o autor imprime às suas crónicas. A título
de exemplo: O Bomba de Choque; Maria dos Anjos, a neurasténica; A Inácia Funga; O Nabo Careca ou O Sousa
esticou.
«Embora desmemoriado, vou colher a essa
amálgama informe de recordações, alguns tipos
que me saíram ao caminho, não como ladrões de estrada, que, de arcabuz, me
exigissem a carteira, mas como cidadãos ordeiros e pacatos, e que são, na
aguarela corrida da minha passagem pelo Mundo, outras tantas pinceladas de emoção
e originalidade», assim define o autor a forma como algumas das personagens
entram nos seus relatos.
O livro de Cunha Mora conheceu posteriormente uma
edição em castelhano, em 1950, com o título Memorias
de un medico olvidado, (Madrid). Também nesse ano, Cunha Mora volta a
publicar um livro sobre as suas aventuras médicas, Deixe ver a língua (Coimbra, 1950).
Amadeu da Cunha Mora veio a falecer em Abril de
1984, em São Paulo, Brasil, onde foi fundador da Sociedade Brasileira de
Sexologia, à qual esteve ligado durante dez anos.
«Como os vinhos, que, envelhecendo, se
enriquecem de éteres perfumados e subtis, assim as minhas obras poderão
valorizar-se na poeira dos séculos… Fica-me esta esperança!»
Paulo Moreiras